A Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) esteve presente no 1º Fórum das Ordens Profissionais, que decorreu a 9 de maio de 2024 no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Miguel Pavão, bastonário da OMD, integrou o terceiro painel: “A inteligência artificial e o futuro das profissões autorreguladas”. O evento foi organizado pelo CNOP – Conselho Nacional das Ordens Profissionais.


A IA tem sido um bem público para o cidadão e é palpável por cada um de nós.

Este enquadramento histórico que já foi apresentado é exatamente aquilo que é a história da humanidade. A humanidade sempre teve receios com as inovações, seja pelo divino, seja pelos extraterrestres que vinham substituir o homem… Ou seja, a tal visão Frankenstein. E agora esse receio existe com a questão da Inteligência Artificial.

Nesse sentido, dir-lhe-ia que sou muito otimista. Sou como o Presidente da República. Como vemos, a IA não é uma coisa só de futuro, é uma coisa que já vem do passado e está no presente. Em muitas profissões está no presente e no nosso quotidiano sem que nos apercebamos.

Há um livro – “Poder e previsão”, de Joshua Gans, Avi Goldfarb e Ajay Agrawal – que fala precisamente deste ‘boom’ que aparece quando há uma inovação ou uma disrupção. Nos EUA, houve o ‘boom’ da eletricidade, há um século, e este também aconteceu com todas as incertezas. Portanto, Thomas Edison teve uma ideia, essa ideia foi aplicada, mas a eletrificação do mundo não aconteceu como a conhecemos hoje. Demorou quase 40 anos e nos primeiros anos houve relatos de pessoas que ficaram eletrificadas, que apanharam choques, que morreram… Diziam que não era viável e colocavam em causa a eletrificação que realmente mudou o mundo.

Assista à intervenção de Miguel Pavão, bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas:

Por isso, a inovação é exatamente isso e é o que nos faz ser diferentes enquanto homens, relativamente àquilo que criamos. Diria que não há qualquer receio, há sim alguns constrangimentos que são apontados e por isso devemos acompanhá-los. Não existe nada que só tenha impacto positivo, as coisas também têm o seu lado negativo.

Já aqui foi dito, mas gostava de reforçar que a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu estão a preparar, diria eu e espero eu, antecipadamente a previsão daquilo que são essas alterações. Nesse sentido, está descrito que muitas profissões vão sofrer. Não tenho qualquer dúvida que a medicina dentária, que tem uma relação umbilical com o médico e o doente, vai sofrer o seu impacto positivo e também algum constrangimento relativamente ao redimensionamento da profissão.

Porque a IA vai tornar fluxos de produtividade muito mais céleres, muito mais capazes e com maior eficiência. Não tenho dúvidas que vamos ter de equacionar no futuro as profissões. E perceber se essas profissões terão viabilidade com os números que têm hoje em dia. É preciso acompanhar essa previsibilidade permanentemente. É um papel que as nossas ordens devem manter na legislação portuguesa e europeia.

Um estudo diz que quase 37% da produtividade laboral associada à IA vai aumentar. E a produtividade na medicina dentária já está a acontecer nos fluxos de diagnóstico, no planeamento de cirurgias, no ‘scanneamento’ de terapêuticas. Por isso, isto já é uma realidade em muitos consultórios médico-dentários. Não tenho muitas dúvidas que quem não quiser ser substituído pelas máquinas terá de se nutrir das ferramentas e da IA.

Podemos utilizar a IA ao ponto de nos reforçarmos para darmos melhores respostas, para termos melhor produtividade, maior assertividade e eficiência. Mas de quem será a responsabilidade? A responsabilidade continuará a ter de ser dada ao profissional, ao homem e ao ser humano. Esse é o grande fator de diferenciação. No dia em que eu tiver um diagnóstico mais facilitado porque uma máquina fez uma determinada leitura, um eventual erro ou discrepância será da minha responsabilidade.

A IA é precisamente para nos ajudar. A dicotomia que existe é a concorrência e acho que o fenómeno de concorrência pode ficar viciado pela IA. Por isso, o desafio é introduzir nessa concorrência a humanização. Eu diria que entre estes dois lados da barricada, por assim dizer, existem: previsão, otimização e produtividade versus responsabilidade, humanização e ética.

Nós, que somos um país de marinheiros, em tempos também tivemos de ser otimistas. Costumo dizer que quando há estes desafios novos, o otimista normalmente espera que o vento venha; o negativista diz e reclama do vento; e o realista ajusta às velas e vai à bolina com as condições que tem. Por isso, diria que temos de ajustar as velas, independentemente das marés e das intempéries que vão surgindo.

Visualize o vídeo integral do evento 1º Fórum das Ordens Profissionais.