A sessão Na Ordem do Dia “Saúde oral como agente de transformação social: quebrar ciclos de pobreza com intervenção preventiva acessível”, realizada no último dia do 34º Congresso da Ordem dos Médicos Dentistas, reuniu oradores de diversas áreas para discutir o papel da medicina dentária na sociedade.
O debate partiu da premissa de que a saúde oral não é um luxo, mas um pilar da dignidade humana e um fator determinante para a empregabilidade e autoestima. Neste contexto, o painel sublinhou a urgência de implementar políticas públicas transversais que não se limitem ao tratamento da dor.
No final da sessão, Mariana Delgado, do gabinete da secretária de Estado da Ação Social e Inclusão, abordou este tema de um ponto de vista sistémico.
“A pobreza é um fenómeno multidimensional e nós temos de ter esta capacidade de ouvir o setor social, o setor empresarial e, em conjunto, construirmos planos para reverter este fenómeno. É assim que vamos mudando mentalidades”, considerou.
Esta visão de cooperação foi reforçada por Maria João Dias, do Programa Somos Sonae, que destacou a responsabilidade das empresas no apoio aos seus colaboradores: “Não chega ter políticas sobre o açúcar ou sobre a prevenção, é preciso que, de facto, tenhamos uma ação concertada com as diferentes áreas da sociedade”, explicou.
No plano social, Ana Simões Rupio, da Rede Europeia Anti-Pobreza, sublinhou que a luta contra a exclusão não pode ser dissociada do acesso a cuidados de saúde, uma vez que esta é uma das áreas onde a desigualdade é mais visível. A socióloga explicou que o objetivo da sua intervenção foi cruzar o panorama atual da pobreza no país com “a luta contra as desigualdades na saúde e, neste caso em concreto, as questões ligadas à saúde oral”, defendendo uma análise mais detalhada sobre como estas carências impactam o dia a dia das populações vulneráveis.
Reforçando esta visão, Estefânia Paiva Martins referiu que a solução exige um compromisso político que democratize o acesso aos tratamentos médico-dentários. “É necessário criar políticas públicas para dar à população a oportunidade de terem acesso quer a consultas de medicina dentária, quer no setor social, no setor público ou no setor privado, para quebrar, precisamente, este ciclo de pobreza”, afirmou.
A encerrar o painel, Adela González Ramirez, da Fundación Odontología Social Luis Séiquer, vincou a importância da cooperação ibérica para o desenvolvimento de modelos de saúde oral mais inclusivos. Ao recordar a proximidade entre Portugal e Espanha, a oradora concluiu que a partilha de experiências e o papel de associações ou organizações não governamentais é essencial para o fortalecimento da medicina dentária: “há muito trabalho já feito e também muito trabalho a partilhar para podermos avançar.”
Assista às declarações de Mariana Delgado, Ana Simões Rupio, Maria João Dias, Estefânia Paiva Martins e Adela González Ramirez.