O bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas esteve presente na conferência “O poder do terceiro sorriso – saúde oral e longevidade em debate”, um evento promovido pelo Fórum Saúde XXI, que reuniu decisores e especialistas para debater a importância da saúde oral na qualidade de vida da população idosa.
Num painel composto por Adalberto Campos Fernandes, antigo ministro da Saúde, Ricardo Rio, ex-presidente da Câmara Municipal de Braga, e Cristiana Araújo, diretora clínica da ONG Mundo a Sorrir, Miguel Pavão sublinhou a urgência de uma mudança de paradigma na abordagem da saúde oral em Portugal, defendendo que o envelhecimento saudável deve passar pela “aposta na prevenção e numa mudança comportamental”.
O responsável considerou que esta abordagem exige, entre outras medidas estruturais, um novo modelo de subvenção dos seguros de saúde, que “devem progredir para criar comparticipações e códigos na área da prevenção”.
“Ao dia de hoje, estamos a falar de uma visão que se perpetua sobre o tratamento. Mas a valorização da prevenção deve começar e ser uma realidade. Não se valoriza aquilo que é um ato essencial, o diagnóstico, a prevenção e a abordagem por via da literacia. Esse é exatamente o primeiro erro. Nesse sentido até o cheque-dentista terá de mudar. Portanto, deixo esse desafio às seguradoras”, afirmou o bastonário da OMD.
A Ordem entende igualmente que deve haver uma adaptação à Tabela de Nomenclatura, cuja novo documento deverá ser publicado no primeiro trimestre de 2026, assim como a inclusão de consultas de saúde oral ao domicílio.

O papel essencial dos cuidadores informais
No âmbito da saúde oral, Miguel Pavão vincou a necessidade de garantir “bem-estar, autonomia e dignidade” durante o envelhecimento e defendeu a necessidade de dar “primazia à formação dos cuidadores informais, que possuem competências que a montante poderão dar resposta e acompanhamento”.
O bastonário destacou o papel da própria OMD na capacitação destes profissionais. “Criámos um atelier de cuidadores no Congresso, que já vai na 3ª edição, pois vemos esta necessidade do ponto de vista de atuação”, explicou.
Segundo o responsável, esta necessidade exige um esforço conjunto que transcende o setor da saúde. “Há um trabalho a ser feito que o Ministério de Segurança Social terá de dedicar uma atenção privilegiada “, considerou, a concluir a sua intervenção.
Quarto estudo nacional das doenças orais
A conferência, que incluiu a divulgação de um estudo que conclui que a saúde oral deve ser integrada nos cuidados geriátricos, teve ainda a presença de Miguel Telo de Arriaga, diretor dos Serviços de Prevenção da Doença e Promoção da Saúde da Direção-Geral da Saúde (DGS).
Apontando ao lançamento, “muito em breve”, do “quarto estudo nacional para as doenças orais”, Miguel Telo de Arriaga indicou que vai ser possível “perceber quais as áreas de intervenção estratégica” para criar “políticas de proximidade” e “intervenções que permitam chegar até às pessoas”.
Já Adalberto Campos Fernandes, antigo ministro da Saúde, defendeu que não deve existir uma rede pública universal de médicos dentistas que seja “pesada e burocrática”, mas sim um núcleo central de prestação pública que evolua para uma “rede nacional de cuidados de saúde oral”, que inclua todos os cidadãos, independentemente da sua capacidade financeira.
“A saúde oral há muito que deixou de ser uma comodidade, um conforto, um luxo”, afirmou, lembrando o seu impacto na autoestima e o facto de ser um “problema de saúde pública”.
Braga a Sorrir com 100 mil tratamentos em 10 anos
No painel esteve também Ricardo Rio, ex-presidente da Câmara Municipal de Braga que recentemente recebeu a Medalha de Ouro da OMD. O antigo governante falou sobre o projeto Braga a Sorrir, uma iniciativa criada em 2015, em parceria com a associação Mundo a Sorrir, que ofereceu mais de 100 mil tratamentos dentários a mais de 3600 pessoas.
“O impacto foi inquestionável, não apenas do ponto de vista clínico, mas também social. Houve uma transformação ao nível de inserção social e profissional por força do tratamento e acompanhamento aos pacientes”, indicou.
Cristiana Araújo, diretora clínica da Mundo a Sorrir, adiantou que além de Braga, esta iniciativa estende-se também ao Porto, onde não há financiamento a 100%, a Alcabideche, no concelho de Cascais, e a Lisboa, onde o financiamento é parcial.