Carcinoma Espinocelular no bordo da língua: um Caso Clínico
Póster de Casos clínicos em Patologia oral autoria de Daniela Simões Pedrosa, Beatriz Marques Tomé, Mariana Almeida Oliveira, Orlando Paulo Moreira Martins, Francisco Marques e
Os cancros que afetam a região da cabeça e do pescoço são considerados o sexto cancro com maior prevalência a nível mundial, constituindo desta forma um problema relevante de saúde pública. Em Portugal, estima-se que em 2020 se tenha verificado uma incidência de cancro oral 16.0/100.000 na totalidade da população. Cerca de metade destes tumores têm como localização preferencial a cavidade oral, e o tipo histológico mais frequente são os carcinomas espinocelulares, representando 90% das neoplasias malignas a nível oral. A zona de maior incidência dos carcinomas de espinocelulares é a língua móvel e em termos epidemiológicos é mais prevalente em pessoas do sexo masculino com mais de 40 anos, e normalmente associado a fatores de risco, destacando-se o tabaco e bebidas alcoólicas. O presente caso clínico descreve uma mulher de 62 anos caucasiana, ASA 1 (refere hipotiroidismo e dislipidémia), fumadora 5 cigarros/dia há 40 anos e consumo esporádico de bebidas alcoólicas. Dirigiu-se à Área de Medicina Dentária, com lesão ulcerada com 3cm de diâmetro, dolorosa e infiltrada à palpação, localizada no bordo esquerdo da língua, com 1-2 meses de evolução e leucoplasia associada, sem adenopatias cervicais. Foi realizada biópsia incisional e o estudo histopatológico revelou tratar-se de um carcinoma epidermóide queratinizante. Procedeu-se à glossectomia parcial esquerda e o exame histopatológico revelou carcinoma epidermoide bem diferenciado queratinizante e invasor do bordo da língua, profundidade de invasão estimada >10mm, sem invasão neural ou vascular mas insinua-se entre as fibras musculares e glândulas salivares minor. Foi ainda realizado esvaziamento ganglionar cervical posterior e anterior, com a remoção de doze gânglios congestivos e ainda da glândula salivar, sem alterações ou metástases. Estadiamento T3 N0, correspondente a um estádio III (M0). A este ponto, houve cessamento do hábito tabágico. Após 1 mês, ao exame intra-oral verificou-se recidiva precoce do CEC da língua, com palpação submandibular dura bilateralmente e dificuldades na fala e alimentação. A doente já se encontrava proposta para a realização de radioterapia complementar, mas dada a recidiva precoce, as dimensões da lesão e a sintomatologia associada, é proposto a realização de quimioterapia. 3 meses depois, a extensa lesão ulcerada atinge quase a totalidade da hemilíngua esquerda, inclui o pavimento oral e espaço sublingual e submandibular homolaterais. Estende-se ainda ao sulco glosso-amigdalino esquerdo e vertente esquerda da base da língua, tendo 9cm na sua maior dimensão no plano axial. Invade o espaço parafaríngeo esquerdo e a vertente mais inferior do músculo pterigoideu medial esquerdo, sem sinais de invasão óssea. Adicionalmente é visualizado um nódulo sólido no pulmão direito. À observação extra-oral verifica-se adenopatia no ventre anterior do digástrico direito e adenomegalia axilar esquerda. Os sinais clínicos sugerem progressão, pelo que é proposto imunoterapia, e, adicionalmente, foi internada para ser realizada traqueostomia e colocação de sonda naso-gástrica. O carcinoma espinocelular na cavidade oral, particularmente na língua, apresenta uma baixa taxa de sobrevivência aos 5 anos, sendo essencial o diagnóstico e intervenção precoces por forma a minimizar a mortalidade, bem como consultas regulares de controlo por forma a atuar imediatamente em caso de recidiva.
Póster, nº 18, 12h50, Hall dos Posters.